Terça-feira, Novembro 17, 2009
E mesmo que eu não consiga mudar nada, eu vou TENTAR.
Às vezes eu deito a cabeça no travesseiro e penso se não estaria na hora de eu virar completamente essa página...
das dores;
das lágrimas;
dos procedimentos médicos sofridos a cada vez que o Fernando ia tirar 6 ou 7 litros de líquido da sua barriga;
das vezes que não achavam mais as suas veias para os exames ou medicações;
das vezes que ele entrou em pré-coma dentro de casa;
das vezes que ele queria levantar da cama (todos os dias) e não conseguia por sentir só dor;
das vezes que ele queria vestir uma roupa e na conseguia, porque não entrava devido ao inchaço;
das vezes que ele queria comer uma comida normal, mas tudo era sem sal, sem gosto;
das vezes que vi ele chorando sozinho pra não me fazer sofrer mais;
de cada vez que tocava o telefone e ele se enchia de esperanças que fosse um chamado para o transplante, e logo se frustrava;
das vezes que ele chorava por saber que o seu alimento mais freqüente eram as pílulas e cápsulas de medicamento;
das vezes que ele não me reconhecia e ficava agressivo por causa da encefalopatia;
das vezes que eu precisava mentir que estava tudo bem com ele, quando os resultados dos exames mostravam que ele não tinha mais como melhorar;
Mas aí eu lembro que há MILHARES de pessoas sofrendo isso e muito mais.
E virar a página da minha vida seria virar as costas para todas essas pessoas.
Mas eu estou aqui, viva, com saúde, com esperanças de uma vida melhor e não vou virar essa página não, para que eu sempre lembre do VALOR QUE A VIDA TEM.
E mesmo que eu não consiga mudar nada, eu vou TENTAR.
A dor que eu sinto por lembrar de todo sofrimento é NADA perto da dor de quem espera ao menos ter ESPERANÇAS.
Domingo, Novembro 08, 2009
Hoje fiquei pensando... Se o Fernando estivesse aqui...
Hoje fiquei pensando...
Se o Fernando estivesse aqui, certamente ele já estaria planejando uma surpresinha para o meu aniversário...
E eu já estaria fazendo de conta que não sabia de nada, só para ver a sua empolgação, como uma criança...
Se ele estivesse aqui eu ganharia flores, mesmo que pequeninhas e simbólicas, mas ele fazia questão de alegrar a casa desse modo.
E eu estaria fazendo de conta que havia ganhado o maior bouquet de flores da minha vida, e de fato parecia mesmo...
Mas ele já não está mais...
E eu não posso fazer de conta...
Talvez se ele não tivesse que ter esperado tanto; o seu organismo estivesse um pouco mais resistente... talvez... talvez... Mas não haviam doadores. O tempo foi implacável.
A vida é assim.
Nem sempre tem um final feliz, nem tudo se pode fazer de conta.
E é preciso sentir, viver, superar, enquanto se tem SAÚDE para tudo isso.
Há pessoas (milhares) que já não têm mais saúde, nem ânimo, nem esperanças, porque sentem a vida se esvaindo numa fila de espera de um órgão.
Pense! Isso é real, não é um faz de conta.
Converse com seus familiares.
Seja um doador.
(me desculpem, foi um pequeno desabafo, de saudade, de um vazio único, de quem todos os dias tenta entender porquê o ser humano está cada vez mais individualista)

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